Culpa materna: por que nunca parece suficiente?
Eu sempre fui uma pessoa que sente culpa com facilidade.
Se acho que alguém está bravo comigo, já fico pensando no que fiz.
Se cometo um erro, demoro para me perdoar.
Mas, depois que me tornei mãe, essa culpa ganhou uma proporção completamente diferente.
Ela passou a aparecer em tudo.
Na alimentação.
No sono.
No trabalho.
Nas quedas.
No desenvolvimento.
Às vezes, parece que qualquer coisa que aconteça com minhas filhas passa primeiro por uma pergunta dentro da minha cabeça:
“O que eu fiz de errado?”
Quando a realidade não parece com a internet
Na minha primeira primeira filha, eu lia muitas coisas na internet, via cursos, assistia a muitos vídeos de crianças dormindo bem, seguindo uma rotina perfeita e aceitando lindamente a introdução alimentar.
Parecia que, na casa das outras mães, tudo funcionava.
Os bebês dormiam.
Comiam.
Seguiam horários.
E as mães pareciam saber exatamente o que fazer.
Na minha casa, nem sempre era assim.
Quando minha filha não dormia como eu esperava, eu sentia que tinha falhado.
Quando a rotina não funcionava, achava que não tinha me esforçado o suficiente.
Quando a introdução alimentar não acontecia daquele jeito bonito dos vídeos, pensava que o problema era comigo.
Hoje percebo que eu comparava os meus dias inteiros com alguns minutos selecionados da vida de outra pessoa.
Mas, naquele momento, eu só enxergava que, na casa dos outros, parecia dar certo.
E, na minha, não.
Então a culpa chegava.
Se alguma coisa acontece, a culpa é minha
Minha filha caiu?
Eu deveria ter prestado mais atenção.
Ficou doente?
Será que eu deveria ter percebido antes?
Não comeu bem?
Talvez eu não tenha oferecido da maneira certa.
Não dormiu?
Talvez eu tenha errado o horário.
Com minha filha mais nova, existe a questão do ganho de peso, que acontece de forma mais lenta.
Minha primeira filha ganhava peso com facilidade. A segunda tem outro ritmo.
Mesmo sabendo que são crianças diferentes, a culpa encontra um jeito de entrar.
Penso se estou oferecendo o suficiente, se deveria insistir mais ou tentar alguma coisa diferente.
É como se eu carregasse a responsabilidade de controlar coisas que não dependem apenas de mim.
A culpa também aparece quando eu trabalho
Eu trabalho em casa.
Isso significa que estou perto das minhas filhas, mas nem sempre disponível.
Quando preciso me concentrar, atender alguém ou terminar uma tarefa, sinto culpa por não estar brincando com elas.
Mas também sinto culpa por ter desacelerado tanto a minha vida profissional.
Penso nos anos de estudo e no negócio que construí.
E me pergunto se joguei tudo isso fora.
Então acontece uma contradição difícil de explicar:
eu sinto culpa por trabalhar, mas também sinto culpa por não trabalhar mais.
Sinto culpa por querer estar com minhas filhas.
E sinto culpa por desejar um espaço que seja só meu.
Qualquer escolha parece vir acompanhada da sensação de que eu deveria estar fazendo outra coisa.
Parece que nunca estamos no lugar certo
Quando estou trabalhando, penso que deveria estar com elas.
Quando estou com elas, lembro de tudo o que ficou parado.
Quando descanso, penso nas tarefas.
Existe sempre uma cobrança silenciosa dizendo que deveríamos ser mais presentes, mais pacientes, mais organizadas, mais produtivas e mais gratas.
Tudo ao mesmo tempo.
Talvez seja por isso que a culpa materna seja tão cansativa.
Ela não nasce apenas do que fazemos.
Ela nasce também de tudo aquilo que acreditamos que deveríamos conseguir fazer.
Sentir culpa não é o mesmo que ser culpada
Tenho tentado aprender isso (embora seja muito difícil para mim).
Minha filha tropeçar não significa que eu falhei.
Ela ter um ritmo diferente de ganho de peso não significa que eu não esteja cuidando bem.
Uma rotina que não funciona não prova que outra mãe sabe mais do que eu.
Precisar trabalhar não significa que amo menos minhas filhas.
E ter escolhido estar mais perto delas não apaga tudo o que estudei ou construí.
Talvez eu não esteja falhando.
Talvez eu esteja apenas tentando atender muitas necessidades importantes ao mesmo tempo.
E ninguém consegue fazer isso perfeitamente.
A delicadeza que ofereço a elas
Quando minhas filhas erram, eu não penso que são incapazes.
Eu acolho.
Explico.
Ajudo.
Tento novamente.
Mas, quando sou eu que erro, muitas vezes me julgo como se não tivesse direito de aprender.
Talvez eu precise começar a me oferecer a mesma compreensão que ofereço a elas.
Reconhecer que sou humana.
Que vou perder a paciência.
Que nem sempre vou perceber tudo.
Que não consigo controlar cada queda, cada fase ou cada resultado.
Que posso amar profundamente minhas filhas e ainda precisar trabalhar, descansar, respirar e existir para além da maternidade.
A culpa provavelmente ainda vai aparecer.
Na verdade ela já virou especialista em encontrar brechas aqui.
Mas talvez eu consiga parar de tratá-la como uma prova de que estou fazendo tudo errado.
Talvez ela seja apenas um sinal de que eu me importo.
E me importar não exige perfeição.
No fim, minhas filhas não precisam de uma mãe que nunca erre.
Precisam de uma mãe que ame, cuide, repare quando for necessário e aprenda a se perdoar também.
Mamãe Ju ♥