Quando a gente descobre que não consegue proteger os filhos de tudo
Tem coisas na maternidade para as quais ninguém prepara a gente.
A gente imagina o cansaço, as noites mal dormidas, as birras, a culpa, a rotina que muda.
Mas ninguém prepara a gente para ver um filho sofrendo por algo que a gente não consegue simplesmente resolver com um abraço.
Nos últimos meses, minha filha começou a contar que uma amiguinha da escola não estava deixando ela participar das brincadeiras.
No começo, a gente tenta entender.
Pensa que talvez tenha sido só um dia ruim.
Tenta observar melhor.
Mas, com o tempo, algumas coisas começaram a aparecer.
Ela parou de querer ir para a escola.
Começou a ficar mais resistente.
Parou de falar tanto das amigas que antes faziam parte das histórias dela.
E aí o coração dos pais começa a juntar as peças.
Da pior forma possível.
Quando dói neles, dói na gente também
Conversei com a escola.
E, na reunião, a professora confirmou que, sim, minha filha estava sendo excluída em algumas brincadeiras.
A escola se colocou à disposição, explicou que já estava acompanhando, tentando incluir, observando a dinâmica e ajudando as crianças a lidarem melhor com isso.
E eu agradeci.
Mas, por dentro, doeu.
Doeu de um jeito difícil de explicar.
Porque é muito duro ouvir que sua filha está sendo deixada de fora.
Ainda mais quando você olha para ela e vê uma criança doce, carinhosa, boazinha, que não bate, não briga, não maltrata ninguém.
Uma criança que só queria brincar.
Só queria participar.
Só queria estar junto.
A vontade de consertar o mundo
Quando cheguei em casa, conversei com meu marido.
Nós dois ficamos tristes.
E a primeira vontade foi tentar compensar.
Proteger.
Resolver.
Consertar.
Colocar uma bolha em volta dela e garantir que ninguém nunca mais fizesse aquilo.
Mas a maternidade tem dessas coisas difíceis.
A gente ama tanto que quer impedir qualquer dor.
Só que nem sempre dá.
Às vezes, a gente não consegue arrancar a dor com as próprias mãos.
Às vezes, a gente só consegue estar perto.
Escutar.
Acolher.
Conversar.
Orientar.
Procurar ajuda.
E seguir tentando acertar.
Entre proteger e preparar
Eu sei que minha filha ainda vai viver muitas situações difíceis.
Nem todo mundo vai gostar dela.
Nem todo mundo vai querer brincar.
Nem todo mundo vai ser gentil.
E, racionalmente, eu entendo que isso faz parte da vida.
Mas ela ainda é tão pequena.
Ainda é meu bebê.
E dói demais ver que ela já precisa aprender algumas coisas tão cedo.
A gente quer proteger, mas também sabe que precisa preparar.
Quer defender, mas também quer ensinar força.
Quer acolher, mas tem medo de superproteger.
Quer interferir, mas também quer que ela aprenda a lidar com o mundo.
E é muito difícil saber qual é a medida certa.
A maternidade não vem com manual
Talvez o mais difícil seja admitir que a gente nem sempre sabe o que fazer.
Não existe uma resposta pronta para quando um filho chega machucado por dentro.
Então a gente faz o possível.
Conversa com a escola.
Acolhe em casa.
Observa os sinais.
Ensina que ela não precisa implorar amizade.
Mostra que ela tem valor, mesmo quando alguém não enxerga.
Lembra que ela é amada.
Que é importante.
Que merece ser tratada com carinho.
E, principalmente, tenta mostrar que ela pode contar com a gente.
Sempre.
Não para resolver tudo por ela.
Mas para que ela nunca se sinta sozinha enquanto aprende a viver.
Seguimos tentando
Eu ainda não tenho todas as respostas.
Acho que nenhuma mãe tem.
Mas estamos tentando.
Tentando fortalecer o coração dela sem endurecer a sua doçura.
Porque eu não quero que minha filha deixe de ser quem ela é por causa da falta de gentileza de alguém.
Quero que ela aprenda, aos poucos, que ela merece estar onde é bem-vinda.
Que amizade não deveria machucar o tempo todo.
Que ela não precisa correr atrás de quem faz questão de deixá-la de fora.
Mas também quero que ela saiba que, em casa, existe colo.
Existe escuta.
Existe amor.
Existe um lugar onde ela nunca vai precisar pedir para pertencer.
E talvez seja isso que a gente consiga fazer.
Não impedir que o mundo machuque.
Mas garantir que, quando machucar, nossos filhos saibam para onde voltar.
Com carinho,
Mamãe Ju 🤍